Memórias da Consulesa

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Memórias da Consulesa
Ref.: 978-85-66967-54-8
R$ 50,00


Memórias da Consulesa

Autor: Ricardo de Faria Corrêa Celestino Alves
ISBN: 978-85-66967-54-8

Ficha técnica

Lançamento 2018
Título original Memórias da Consulesa
Tradução  
Formato 14 x 21
Número de páginas 104
Peso 170 g
Acabamento Brochura
ISBN 978-85-66967-54-8
EAN 978-85-66967-54-8
Preço R$ 50,00

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Conteúdos especiais

 
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Leia um trecho do livro

Introdução

 
Era verão de 1972. Estávamos hospedados na casa “Villa Patagônia”, no balneário de Punta del Este, República Oriental del Uruguay. Nesta época creio que a badalada praia de Maldonado não contava com mais de dez mil almas na alta temporada, concentradas da península até a Avenida Itália, longe da arborizada e deserta Avenida Roosevelt,  o que proporcionava uma atmosfera tranquila e familiar aos Argentinos e Gaúchos do sul do estado que ali desfrutavam de algumas semanas de ócio e descanso mas não sem antes enfrentarem doze ou catorze horas de estradas nos desconfortáveis automóveis da época, o que ainda era vantajoso quando comparadas aos dois dias de viagem em rodovias não pavimentadas caso o alternativo destino escolhido fosse o litoral do Rio Grande do Sul.
Brincando nas ruas de areia e entre os pinheiros do bosque da rua Patagônia tive minhas primeiras aulas de espanhol com os amigos e vizinhos Uruguaios e Argentinos. Quando apareciam as dificuldades com a língua irmã latina eu apelava para meus avós, Dona Alice e Dr. Ney, ou para minha Bisavó, Dona Leonor, que prontamente dissipavam minhas dúvidas oferecendo larga explanação sobre a etimologia da palavra e o contexto em que se encontrava, em Português e Espanhol.
No gramado da casa azul onde estávamos hospedados, contínuo à varanda de telhas espanholas, se dispunha um jogo de cadeiras e mesas de ferro branco, recanto agradavelmente arejado para o convívio familiar no chá da tarde sempre guarnecido com bolos macios ou no desjejum com a iguaria que é o leite do litoral Uruguaio, acompanhado de media-lunas. Nestas ocasiões eu ouvia fascinado as conversas dos meus avós.
Em especial lembro que em um dia eu troquei a praia para ouvir, no silêncio deste jardim, as histórias de Dona Leonor sobre a guerra de 1939, o que ela viu e viveu neste episódio infame da humanidade. Eu os ouvi falar sobre o povo Judeu e perguntei o que era isso. Em contra partida recebi uma palestra de três dias sobre o assunto, quem eles eram, desde ensinamentos bíblicos do velho testamento até os horrores em que foram postos à prova. Assim eram as respostas: prolixas, detalhadas e sem pressa. Eu me deleitava com as aulas.
Meus pais estavam em Uruguaiana trabalhando e deveriam chegar em alguns dias. Nós fomos antes em caravana de dois carros e larga bagagem para uma hospedagem de dois meses. A viagem era sempre demorada, mas essa levou vinte horas, pois o motorista de um dos automóveis esqueceu de por água no radiador e a fumaça foi grande.
Punta del Este oferecia, já nesta época, inúmeras alternativas de lazer e cultura distribuídos ao redor da Avenida Gorlero. O cinema Concorde apresentava os lançamentos cinematográficos e seu moderníssimo parque de diversões no saguão. A torre do farol cercada por casas antigas em estilos espanhol e inglês que comprimiam a estreita vereda com suas janelas tomadas pela maresia davam um tom bucólico nos finais de dias invariavelmente frios pelo inclemente vento do mar. A ponta da península desafiava as ondas selvagens do sul com sua âncora em eterno repouso nas rochas no início da Praia Brava, a qual eu julgava ser do encouraçado de bolso Graf Spee e me despertava a fantasia infantil ao ouvir a história de sua batalha contra os cruzadores ingleses Ajax, Exeter e Aquiles. O porto no início da Mansa com seu paliteiro de mastros que chegavam e partiam para circundar a ilha Gorriti e desbravar o poderoso Atlântico. O cheiro de peixe atraía os lobos marinhos aos terminais pesqueiros para darem um espetáculo aparte aos olhos infantis com suas bocarras cheias de dentes. A torre dos Waffles escondida no bosque era a guardiã medieval da mistura de aromas de pinheiros molhados e doce de leite derretido.
Ir à praia era uma opção, mas não uma atividade diária. Quando íamos, claro que eu gostava dos banhos no mar frio, corajosamente enfrentando as águas-vivas que apenas esperavam minha entrada na água para me cercarem. Mas minha predileção estava em sentar ao lado de meus avós e bisavó e ouvir suas histórias contadas entre os gritos dos vendedores da areia: “Diário, Clarin, La Nación, Café, amargo, Dulce, semi-dulce, café”. Dona Leonor ia à praia trajando um alvo vestido de linho rendado, óculos escuros redondos, rede no cabelo e se protegia do sol sob uma sombrinha de mão com rendas brancas penduradas à borda. Dona Alice usava um sóbrio maiô preto e touca de banho para a natação. Eu me protegia do vento com um casaco de algodão, à época nomeado Saída de Banho, com largas listas verticais brancas e azuis.
Meu avô me impressionava pela desenvoltura ao se comunicar com todos na língua espanhola que eu tentava desbravar e pelo seu espírito atlético ao nadar por meia hora no mar gelado depois da rebentação e ainda ter disposição para jogar tênis todas as tardes.
Nesse cenário eu formei minhas primeiras memórias de vida. Nele foram despertadas minha curiosidade através das histórias contadas pelos familiares mais velhos. Ali tive minha iniciação bilíngue, multicultural e os primórdios da formação de caráter.

Foto Autor

Ricardo de Faria Corrêa
Celestino Alves

 

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Ficha técnica Lançamento 10/06/2019 Título original Das Seelenleben der Tiere Tradução